
Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios.
Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos.
A ignorância expande-se de forma aterradora.
Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza.
A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo.
Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade.
Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar.
Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos.
Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia.
O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo.
Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato.
Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema.
Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo.
José Saramago (Azinhaga, Golegã, 16 de Novembro de 1922 - Lanzarote, 18 de Junho de 2010)

"Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro."
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória."
"Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo."
"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
"Química
Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende."
"Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida."
"Vá cada um aonde possa seus próprios meios: guias e gurus são más companhias."
"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais."
Adeus José Saramago.
Allan Delon