domingo, 24 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Aniversário
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
S2

Quem tem dois corações
Me faça presente de um
Que eu já fui dono de dois
E já não tenho nenhum
Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos
Preso nos abraços teus
Eu não sinta a própria vida
Nem minh’alma ave perdida
No azul amor dos teus céus
Botão de rosa menina
Carinhosa, pequenina
Corpinho de tentação
Vem morar na minha vida
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração
Quando passo um dia inteiro
Sem ver o meu amorzinho
Cobre-me um frio de janeiro
No junho do meu carinho.
Fernando Pessoa
terça-feira, 13 de julho de 2010
Dia 13 de Julho
sábado, 10 de julho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Desencanto

Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios.
Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos.
A ignorância expande-se de forma aterradora.
Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza.
A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo.
Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade.
Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar.
Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos.
Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia.
O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo.
Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato.
Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema.
Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo.
José Saramago (Azinhaga, Golegã, 16 de Novembro de 1922 - Lanzarote, 18 de Junho de 2010)

"Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro."
"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória."
"Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo."
"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
"Química
Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende."
"Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida."
"Vá cada um aonde possa seus próprios meios: guias e gurus são más companhias."
"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais."
Adeus José Saramago.
Allan Delon
domingo, 14 de março de 2010
Vozes nietzscheanas...
Reza uma antiga lenda grega que o rei Midas perseguiu na floresta, durante longo tempo, sem conseguir capturá-lo, o sábio Sileno preceptor e servidor do deus Dioniso. Quando por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe o rei qual dentre todas as coisas era a melhor e o mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, Sileno calava-se; até que, forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras:
"Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer." (Nietzsche, 1872).
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Abraços Partidos


O que faz um filme ser arte e outro apenas técnica?
O que faz com que você entre em uma historia de forma tão completa que você se sente mal quando o filme acaba? Fica uma sensação incomoda, de abandono, como se fossemos abandonados pelo filme, quando ele acaba.
Partes dele vem conosco, para sempre.
Outras pequenas partes são lembradas perfeitamente mas no geral, a maioria das cenas caem no esquecimento.
Mas, em mim, particularmente, alguma coisa muda, alguma coisa fica, alguma coisa sai comigo do cinema, pega o ónibus e vai para minha casa. Em meus pensamentos, sempre que assisto um bom filme isso acontece e é assim que eu sei que um filme é bom ou não (lembrando que não sou nenhum crítico, nem quero ser), é assim que eu diferencio uma obra de arte de uma obra da técnica.
Vou falar o por que eu estou escrevendo sobre isso.
O penúltimo filme que eu assisti no cinema foi Avatar. Um enlatado de pai e mãe, legitimo produto de todas as tecnologias que o cinema desenvolveu. Um filme com enredo tão fraco e repetitivo que eu não sabia se estava assistindo, Alien, O Último Samurai, Matrix, Pocahontas ou Titanic. Por incrível que pareça, eu vi em Avatar, não só referencias podres, mas praticamente elementos copiadas de todos estes filmes, TODOS, entre outros que eu nem lembro do nome, nem faço nenhuma questão de lembrar.
Avatar me fez ficar na cadeira do cinema mais pelos efeitos especiais realmente surpreendentes do que pela atuação dos atores, na verdade não vi atuação =/ o filme é um grande vídeo game (e eu sou apaixonado por games), um espetáculo de luzes, é o supra sumo da técnica em prol de um show de clichés. Mas por incrível que pareça, como algo para se distrair mesmo, sem a menor pretensão é um filme bom, para domingo a tarde, no lugar do Domingão! Parabéns James Cameron, tirou o lugar do Faustão.
O último filme que eu assistir (e isso foi hoje, acabei de voltar do cinema rssss) foi Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar. Vou retomar a pergunta que eu fiz no começo:
O que faz um filme ser arte e outro apenas técnica?
Se alguém souber me fale, por favor. Eu ainda não sei, mas percebo a diferença brutal que há entre Abraços Partidos e Avatar (estou trazendo estes dois p o debate só para ilustrar, poderia citar vários outros). Mas há uma distancia intransponível entre estes dois filmes, não só pelo fato de um ser fruto do milagre de Hollywood e o outro de um diretor que faz milagres. NÃO SÓ ISSO.
Existe alguma coisa nos filmes de Almodóvar que me trazem uma sensação que só tenho nos filme de Almodóvar.
Algo que me faz entrar no filme, sentir-me um participante da historia.
Algo que eu não sei dizer o que é, mas que eu identifico como arte.
Almodóvar sempre traz boas surpresas para os seus fãs, e Abraços Partidos é o caso.
Como em um único filme, nos podemos nós sensibilizar com uma historia deficil, entrelaçada, que por vezes beira o inverossímil e conseguir trazendo das profundezas das lembranças frustradas dos personagens o que há de verdadeiro e sensível nas lembranças frustradas do próprio público espectador? (Eu no caso)
Como pode estar perdido em uma historia sem entender quase nada, rir com situações engraçadíssimas, comover-se ao ponto de deixar uma pequena lágrima cair, se surpreender com os acontecimentos e por final chegar a uma sensação de alívio, graça, reparação, uma verdadeira catarse? Demoro muito para sentir isso e não é com qualquer filme se sinto, cada dia que passa, na verdade estou ficando muito mais chato para assistir filmes, muito mais seletivo. Sem contar o fato que só gosto de ir ao cinema sozinho, acho que só aproveito completamente o filme estando só, sem ninguém para perguntar o que aconteceu, ninguém para pedir que eu explique qualquer coisa ou ninguém para dizer no final do filme que não gostou, eu mesmo digo isso dos filmes que eu não gosto, não preciso de ajuda (ainda rsrsrs). Falar sobre filmes comigo é como falar do futebol com um corinthiano (achei a metáfora péssima, mas vou deixa-la aqui mesmo rs).
Lembrando que, isso tudo é muito pessoal, é uma questão de gosto, de percepção, não estou aqui querendo dizer o que é bom ou ruim, muito menos quero dizer o que é arte, só estou escrevendo sobre o que me agrada e sobre o que não me agrada, sobre filmes, SÓ ISSO!
Não sei o que escrever mais, estava eu no ponto de ónibus, pensando em escrever algumas coisas sobre o filme que tinha acabado de assistir e aqui estou escrevendo. Um amigo me falou que a gente começa a virar blogueiro quando fica assim, pensando em passar para o blog tudo que esta se passado com a gente.
Bom, abraços para os que leram :)

O que faz com que você entre em uma historia de forma tão completa que você se sente mal quando o filme acaba? Fica uma sensação incomoda, de abandono, como se fossemos abandonados pelo filme, quando ele acaba.
Partes dele vem conosco, para sempre.
Outras pequenas partes são lembradas perfeitamente mas no geral, a maioria das cenas caem no esquecimento.
Mas, em mim, particularmente, alguma coisa muda, alguma coisa fica, alguma coisa sai comigo do cinema, pega o ónibus e vai para minha casa. Em meus pensamentos, sempre que assisto um bom filme isso acontece e é assim que eu sei que um filme é bom ou não (lembrando que não sou nenhum crítico, nem quero ser), é assim que eu diferencio uma obra de arte de uma obra da técnica.
Vou falar o por que eu estou escrevendo sobre isso.
O penúltimo filme que eu assisti no cinema foi Avatar. Um enlatado de pai e mãe, legitimo produto de todas as tecnologias que o cinema desenvolveu. Um filme com enredo tão fraco e repetitivo que eu não sabia se estava assistindo, Alien, O Último Samurai, Matrix, Pocahontas ou Titanic. Por incrível que pareça, eu vi em Avatar, não só referencias podres, mas praticamente elementos copiadas de todos estes filmes, TODOS, entre outros que eu nem lembro do nome, nem faço nenhuma questão de lembrar.
Avatar me fez ficar na cadeira do cinema mais pelos efeitos especiais realmente surpreendentes do que pela atuação dos atores, na verdade não vi atuação =/ o filme é um grande vídeo game (e eu sou apaixonado por games), um espetáculo de luzes, é o supra sumo da técnica em prol de um show de clichés. Mas por incrível que pareça, como algo para se distrair mesmo, sem a menor pretensão é um filme bom, para domingo a tarde, no lugar do Domingão! Parabéns James Cameron, tirou o lugar do Faustão.
O último filme que eu assistir (e isso foi hoje, acabei de voltar do cinema rssss) foi Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar. Vou retomar a pergunta que eu fiz no começo:
O que faz um filme ser arte e outro apenas técnica?
Se alguém souber me fale, por favor. Eu ainda não sei, mas percebo a diferença brutal que há entre Abraços Partidos e Avatar (estou trazendo estes dois p o debate só para ilustrar, poderia citar vários outros). Mas há uma distancia intransponível entre estes dois filmes, não só pelo fato de um ser fruto do milagre de Hollywood e o outro de um diretor que faz milagres. NÃO SÓ ISSO.
Existe alguma coisa nos filmes de Almodóvar que me trazem uma sensação que só tenho nos filme de Almodóvar.Algo que me faz entrar no filme, sentir-me um participante da historia.
Algo que eu não sei dizer o que é, mas que eu identifico como arte.
Almodóvar sempre traz boas surpresas para os seus fãs, e Abraços Partidos é o caso.
Como em um único filme, nos podemos nós sensibilizar com uma historia deficil, entrelaçada, que por vezes beira o inverossímil e conseguir trazendo das profundezas das lembranças frustradas dos personagens o que há de verdadeiro e sensível nas lembranças frustradas do próprio público espectador? (Eu no caso)
Como pode estar perdido em uma historia sem entender quase nada, rir com situações engraçadíssimas, comover-se ao ponto de deixar uma pequena lágrima cair, se surpreender com os acontecimentos e por final chegar a uma sensação de alívio, graça, reparação, uma verdadeira catarse? Demoro muito para sentir isso e não é com qualquer filme se sinto, cada dia que passa, na verdade estou ficando muito mais chato para assistir filmes, muito mais seletivo. Sem contar o fato que só gosto de ir ao cinema sozinho, acho que só aproveito completamente o filme estando só, sem ninguém para perguntar o que aconteceu, ninguém para pedir que eu explique qualquer coisa ou ninguém para dizer no final do filme que não gostou, eu mesmo digo isso dos filmes que eu não gosto, não preciso de ajuda (ainda rsrsrs). Falar sobre filmes comigo é como falar do futebol com um corinthiano (achei a metáfora péssima, mas vou deixa-la aqui mesmo rs).
Lembrando que, isso tudo é muito pessoal, é uma questão de gosto, de percepção, não estou aqui querendo dizer o que é bom ou ruim, muito menos quero dizer o que é arte, só estou escrevendo sobre o que me agrada e sobre o que não me agrada, sobre filmes, SÓ ISSO!
Não sei o que escrever mais, estava eu no ponto de ónibus, pensando em escrever algumas coisas sobre o filme que tinha acabado de assistir e aqui estou escrevendo. Um amigo me falou que a gente começa a virar blogueiro quando fica assim, pensando em passar para o blog tudo que esta se passado com a gente.
Bom, abraços para os que leram :)

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